3.5.10

As coisas por vezes cansam-me, fico farta. Por coisas, entenda-se, o mundo em geral. Canso-me de todos que me conhecem, conhecem pouco, dos que acham que sim e dos que nem sequer sabem que existo, que me querem impor coisas pressas prazos desafios, que se sentem no direito de esperar algo de mim, de se desiludir coitados de julgarem de exigir o que quer que seja e que não percebem nada porque não pensam. Canso-me do ritmo idiota que levamos por alguma razão que não a nossa própria vontade. Estou farta do futebol o ano inteiro já não há paciência e estou farta do povo estúpido que tanto alimenta e mal esta religião como se fosse a salvação da pátria. Estou farta das pessoas que vão fazer figuras tristes para a televisão porque não se enxergam e não sabem distinguir o gostar de dançar ou cantar ou fazer o pino, de saber fazer tudo isso, e estou ainda mais farta da televisão e revistas e tudo o que "cultiva" o povo, que aproveita tudo isso até ao tutano. Canso-me das pessoas mal-educadas e dos empregados de café que não sabem ser empregados de café. Fico farta de pensar que tenho de fazer quando por vezes nem tenho e de me sentir mal por isso. Estou farta de sentir que tenho de me justificar. E farto-me que isto tudo e muito mais me deixe apagada "com cara de muito trabalho" como me disseram à bocado que é a fuga a qualquer desenvolvimento da resposta a qualquer pergunta relativa ao nosso estado geral. Fico  sem vontade de grande coisa, de desenhar que tanto gosto, de passear ou ser cúmplice de brincadeiras e piadas parvas e esqueço-me de coisas boas. Fico sem paciência.

Contento-me com tirar fotografias, comer broa com queijo e massa com camarão e beber vinho tinto na casa do vale e ouvir música que não se deve ouvir, beber uma groselha e ouvir saxofone e baixo e bateria e guitarra na praça do Camões e apaixonar-me por Lisboa outra vez, fazer tartes de maçã e amoras às 9h da manhã para a minha mãe acordar com o cheiro, ver filmes improváveis e outros que já perdi a conta às vezes que os vi, comprar livros, almoços de família, ler Pickwick ao pequeno-almoço, filmar a minha avó a fazer ensopado, ouvir música aos altos berros, baldar-me às aulas para ir ver um filme e estar com uma amiga, receber abraços que me deixam a chorar porque querem e precisam de me abraçar, e pegar nos gatos em concha nas mãos e esfregá-los na cara, arrancar um pé de lavanda e guardar na minha mala, apanhar sol no pescoço e mais mais muito mais.

1 comentário:

• pÓ • disse...

entendo-te bem, entendo pois...